Em defesa de um telemóvel mais calmo
Pegue no telemóvel e repare no que ele quer. Uma bolinha vermelha aqui, um contador novo ali, um feed que se volta a encher assim que chega ao fim. Nada disto é acidental. O telemóvel, tal como vem, está afinado para ser o mais estimulante possível, porque a atenção é aquilo que a maioria das apps nele foi feita para colher. É uma coisa razoável da parte delas. E também é algo de que tem todo o direito de se afastar.
Não precisa de se tornar outro tipo de pessoa para usar o telemóvel de outra forma. Só precisa de mudar algumas definições e aceitar que mais silêncio é uma opção.
O que um telemóvel barulhento faz a um dia normal
Um telemóvel barulhento raramente o interrompe com algo urgente. Interrompe-o com pequenos puxões. Uma vibração a meio de uma frase. Uma olhadela ao ecrã bloqueado que se transforma em dez minutos que não tinha planeado gastar. Um feed que abriu por uma coisa e de onde saiu sem ela, mas com a vaga sensação de ter estado ocupado.
Cada puxão é minúsculo. O custo está na acumulação. A sua atenção vai sendo cortada em pedaços cada vez mais pequenos, e esses pedaços são mais difíceis de voltar a juntar do que se esperaria. À noite pode sentir-se estranhamente cansado sem ter feito grande coisa, o que já é, por si só, uma pista.
A calma é uma definição, não um traço de personalidade
Há uma história tentadora segundo a qual algumas pessoas são simplesmente disciplinadas e as restantes são fracas. Não é uma história muito útil. As pessoas que parecem calmas com o telemóvel normalmente não estão a exercer uma força de vontade heroica o dia todo. Organizaram as coisas para precisarem de menos força de vontade.
É essa a parte animadora. Não está a lutar contra o seu carácter. Está a ajustar predefinições. Um telemóvel que não se acende de poucos em poucos minutos é mais fácil de ignorar, não porque ficou mais forte, mas porque há menos para ignorar.
Alguns princípios para um telemóvel mais calmo
Nada disto é tudo ou nada. Trate-o como um menu, não como um voto. Um punhado de mudanças que ficam faz mais do que uma revolução dramática abandonada até quinta-feira.
- Menos feeds. Os feeds sem fim, que se voltam a encher, são a parte mais barulhenta da maioria dos telemóveis. Não tem de os apagar, mas quanto menos tiver a um toque de distância, mais calmo fica o aparelho inteiro.
- Menos interrupções. A maioria das notificações são pedidos de atenção disfarçados de informação. Desative as que não são urgentes, que são quase todas, e consulte as coisas ao seu próprio ritmo.
- Ferramentas que terminam em vez de repetir. Uma boa ferramenta acaba. Abre-a, faz o que tem a fazer e pousa-a. Desconfie de tudo o que foi pensado para que nunca chegue bem ao fim.
- Menos vigilância. Uma parte surpreendente do ruído do telemóvel vem do rastreio, porque uma app que o observa de perto tem mais razões para o puxar de volta. Escolher apps que recolhem menos é em parte uma questão de privacidade e em parte uma questão de paz.
Se quiser uma versão mais completa disto, minimalismo digital, de forma realista aborda a mesma ideia com menos generalidades e mais pormenores.
Porque as pequenas mudanças valem a pena
O argumento a favor de um telemóvel mais calmo não é que o seu aparelho seja mau ou que se deva sentir culpado por o usar. É que as definições de origem foram escolhidas por pessoas cujos interesses não coincidem totalmente com os seus, e você também tem voto. Ver um vídeo devia ser como ver um vídeo, e não como atravessar três feeds para lá chegar. Foi mais ou menos por isso que criámos o talavo, um browser de vídeo gratuito e sem distrações para iPhone e iPad que bloqueia anúncios e esconde feeds, comentários e recomendações, para que aquilo que veio procurar seja aquilo que encontra. Pode encontrá-lo na App Store.
Não vai notar a diferença no primeiro dia. Vai notá-la da primeira vez que pousar o telemóvel e perceber que não estava a estender a mão para ele. A calma acumula-se em silêncio, tal como o ruído, só que na direção que realmente quer.